quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Deus odeia o pecado, mas ama o pecador?

Refutação ao texto de Solano Portela que afirma que “Deus odeia o pecado e odeia o pecador”

O reverendo Solano Portela escreveu um texto questionando a expressão “Deus odeia o pecado, mas ama o pecador”. Segundo ele isso não é verdade porque, já que pecado e pecador são inseparáveis, a verdade é que Deus odeia o pecado e também o pecador. Quero abordar aqui as razões pelas quais considero a afirmação de Portela incorreta.


A primeira dessas razões é que o texto aborda um assunto complexo de apenas uma perspectiva. Se você pretende questionar o amor de Deus pelo pecador e afirmar o contrário, que ao invés de amor o que Deus sente é ódio, você obrigatoriamente deve explicar porque o clássico e secular entendimento de textos que falam do amor de Deus para com os pecadores está equivocado. A abordagem parcial de Portela fica óbvia porque ao negar o amor de Deus pelos pecadores, ele nem mesmo reservou uma única linha para a afirmação mais conhecida do amor de Deus pelos pecadores encontrada em João 3.16: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”.

Porque é importante abordar textos como esse? Porque, se o ódio de Deus aos pecadores não é afirmado literalmente na Escritura em nenhum lugar, aqui Jesus afirma o amor de Deus aos pecadores. Isso porque apenas pecadores podem crer nele para não perecerem. Outros textos que afirmam o amor de Deus para com os pecadores deveriam ser colocados em pauta: “nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados” (1 João 4.10); “nós o amamos porque Ele nos amou primeiro” (1 João 4.19); “mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Romanos 5.8).

Temos que entender, porém, que no sentido salvífico (a salvação eterna da perdição e condenação do pecado) o amor de Deus é derramado exclusivamente sobre o seu povo e, individualmente, sobre os que ele eficazmente chama para si. Sobre aqueles que responderão, ao chamado eficaz, abraçando a Cristo como único e suficiente Salvador.

Como transcrito acima, o reverendo Solano Portela afirma que o amor de Deus é derramado exclusivamente sobre seu povo. Isto é, Deus ama somente aqueles que Ele escolheu salvar. Pergunto: Por acaso o povo de Deus sobre o qual é “derramado exclusivamente” o amor salvífico de Deus não é pecador? Por acaso “aqueles que responderão, ao chamado eficaz, abraçando a Cristo como único e suficiente Salvador” não são também pecadores? Ou seriam eles pecadores melhores ou menos pecadores que os demais?

Logo, a conclusão a que o Reverendo Portela não ousou chegar é: Se Deus odeia os pecadores, Ele odeia inclusive os eleitos. Afinal de contas, embora não estejam na prática do pecado e lutem arduamente para dominá-lo, os eleitos salvos em Cristo Jesus permanecem sendo pecadores.

A frase “Deus odeia o pecado, mas ama ao pecador”, entretanto, por mais que seja proferida e repetida, é uma forma simplista de expressar uma situação complexa, pois realmente é impossível separar o pecado do pecador, como se o pecado fosse uma entidade com vida independente, que apenas se utiliza do corpo e da mente do praticante.

O argumento seguinte de Solano Portela é exatamente esse: que Deus odeia o pecado e odeia o pecador porque “é impossível separar o pecado do pecador”. Num certo sentido é correto afirmar que não é possível distinguir o pecado do pecador; afinal, não somos justos que apenas portam o pecado como se ele fosse um apêndice. Não, o pecado deveras nos corrompe, apodrece até o mais íntimo do nosso ser e envenena até o mais puro dos nossos pensamentos. Lembro aqui a duríssima e explícita afirmação se Spurgeon: “Há pecado até na nossa santidade, há incredulidade na nossa fé; há ódio no nosso próprio amor; há lama da serpente na mais bela flor do nosso jardim”. A afirmação de Spurgeon só não corrobora a de Portela porque o pastor inglês não se refere à nossa vida pregressa antes de encontrar Cristo. Não, Spurgeon fala do nosso hoje, embora crentes e salvos em Cristo, ainda “há lama da serpente na mais bela flor do nosso jardim”. Ou seja, o pecado nos infecta em níveis absolutos.

Daqui chegamos a duas conclusões:
  • Se Portela estiver certo, embora eleitos e salvos em Cristo, Deus nos odeia; afinal, “há pecado até na nossa santidade”.
  • Quando se trata da ação do pecado sobre nós, verdadeiramente não é possível separar o pecado do pecador.
No entanto, quando se trata da essência, do que somos, do que é o pecado e do que é o ser humano, afirmar que é impossível separar um do outro é errado por duas razões.
  1. O pecado e o pecador não são a mesma coisa. O ser humano foi criado sem o pecado, existiu antes do pecado fazer parte de sua vida e, no que cabe aos salvos, existirá após a destruição total do pecado. Embora não seja possível dissociar um do outro, ambos não são a mesma coisa.
  2. Se for impossível separar o pecado do pecador como Cristo pode nos purificar de toda injustiça? (1 João 1.9). Era falsa a esperança de Davi de que se Deus o purificasse ele ficaria limpo do pecado? (Salmo 51.7). Será que Tito exagerou quando disse que Cristo se deu a si mesmo a fim de remir-nos de toda iniquidade? (Tito 2.14). De modo algum, embora o pecado esteja entranhado em nós, o sangue de Cristo é efetivamente capaz de purificar-nos de toda injustiça.
Refutamos o argumento do Reverendo Portela ao mostrar que o pecador e o pecado não são a mesma coisa. Isso significa que o pecado seria “uma entidade com vida independente”? Não, pecado é rebelião contra Deus, é a condição humana depravada que se volta contra Deus e contra sua vontade. É isso que Deus odeia: a condição depravada a que estão sujeitos aqueles que Ele criou e que ama.

Em Romanos 9.11-18 a Bíblia fala do “aborrecimento” (ódio) de Deus contra Esaú, contrastando com o amor derramado sobre Jacó. Mas a Palavra de Deus expressa em outras ocasiões (além desse caso específico, de Esaú e Jacó) o ódio (“aborrecimento”) de Deus a pecadores. Isso ocorre, porque ele é tanto JUSTIÇA como AMOR.
Por exemplo, no Salmo 11.5, lemos “O Senhor prova o justo e o ímpio; a sua alma odeia ao que ama a violência”. Veja que ele não odeia somente a violência (inexistente, sem o praticante), mas “ao que ama a violência” – uma pessoa, o pecador.

Pra sustentar seu argumento Portela dá-nos dois exemplos; no primeiro fala do ódio de Deus a Esaú e do seu amor a Jacó e, no segundo, cita o texto do Salmo 11.5 que diz que Deus põe à prova o justo e o ímpio e que Ele abomina esse e ama aquele. A pergunta obrigatória aqui é: Quem é justo? Paulo nos responde afirmando categoricamente: Ninguém. “Não há justo, nenhum sequer” (Romanos 3.10). Isso nos leva ao primeiro exemplo. Deus amou Jacó, mas odiou Esaú. Porque Deus odiou Esaú? Foi porque ele era pecador como implicitamente sugere o reverendo Portela? De forma alguma, visto que Deus odiou a Esaú antes mesmo do nascimento dele (Romanos 9.11). Da mesma maneira obviamente Deus não amou a Jacó pela sua justiça.

Após o nascimento de Esaú e Jacó, os gêmeos se revelaram pecadores; mas, apenas um deles foi odiado. Porque então Deus odeia uns e ama outros? Mais uma vez é Paulo que nos responde citando a fala de Deus a Moisés: “Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão” (Romanos 11.15), ao que Paulo conclui que “tem ele misericórdia de quem quer e também endurece a quem lhe apraz” (Romanos 9.18).

Deus odeia pecadores não por serem eles pecadores, mas porque Ele assim quis e livremente escolheu. Deus ama pecadores apesar do seu pecado pela mesma razão: Ele quis assim, escolheu amá-los.

Não resta dúvida, portanto, que pelo menos nessas instâncias específicas Deus odeia pecadores.

O último parágrafo do artigo de Solano Portela contradiz sua contundente afirmação inicial ("Deus odeia o pecado e odeia o pecador"). Agora ele afirma que Deus odeia pecadores “pelo menos nessas instâncias específicas”. Isso é fato claramente afirmado na Escritura: Em instâncias específicas, Deus odeia pecadores. É isso que nos ensina os exemplos de Esaú e de Faraó que, exclusivamente pelo seu desígnio, quis Deus rejeitá-los.

Consequentemente, isso deve nos fazer cautelosos de dar uma declaração genérica e abrangente de que ele não odeia pecadores, pois esse ensinamento não pode ser atribuído, dessa maneira, à Bíblia e carece de inúmeras qualificações.

A segunda afirmação de Portela ao concluir seu texto parece suavizar sua afirmação inicial direcionando para uma lição: É preciso ser cautelosos em afirmar o amor genérico de Deus a todas as pessoas ou, como diz ele, afirmar que ele não odeia pecadores. Sendo assim,
  • Pode-se afirmar que Deus ama todas as pessoas? Esaú e Faraó mostram-nos que Não.
  • Pode-se afirmar que Deus odeia todos os pecadores? Jacó, você e eu mostramos que Não.

Concluímos que Deus odeia o pecado, mas quanto aos pecadores, Ele os ama ou odeia de acordo com Sua vontade soberana. Somente a Ele toda Glória.
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