Cavalinho vermelho



Uma senhora dessas de expressão surrada e cansaço estampado levava no ônibus um cavalinho vermelho. Será um presente? Pensei. Sem dúvida! Mas, e o embrulho? Sabe-se bem a importância essencial do embrulho num presente de criança. Será que era inconveniente demais carregar o cavalinho embrulhado e na bolsa estava o papel de presente? Pensava nisso quando o cavalinho berrou. 


Adorei o som que lhe saia por uma válvula no pescoço toda vez que a senhora sem querer apertava o bichinho entre suas pernas e o banco da frente. Nos berros subsequentes que o cavalinho deu, como que protestando pelos apertões que levava, a senhora levava a mão ao pescoço do cavalinho abafando-lhe o berro. Tal e qual uma mãe faria com uma criança inquieta. 

Ela agia assim tão naturalmente que pensei não haver criança alguma esperando o cavalinho sem embrulho, mas será possível ser dela mesma o brinquedo? De onde vem a absurda noção que cavalinhos ou carrinhos de madeira com rodinhas feitas de chinelo velho ou até bonecas com suas roupas sob medida são coisas de crianças? 

Talvez ela até tivesse dito para alguém que quando viu na loja o cavalinho lembrou-se saudosa que desde a infância quisera um. E que agora, tomada daquela lembrança, permitira-se ao impulso de comprar e levar para casa o seu, todo seu cavalinho vermelho. O ônibus parou e a mulher e o seu estaticamente sorridente cavalinho vermelho desceram sem se despedir. 

Fiquei a imaginar se ela o colocaria junto de ursinhos e bonecas e o ficaria admirando como uma tardia conquista da infância ou se, antes mesmo que ela entrasse em casa alguma criança o pegaria e sairia cavalgando sobre ele, divertindo-se ao fazê-lo berrar, sem nem por um segundo se dar conta da falta do embrulho.

Comentários